quinta-feira, 7 de maio de 2015

ohlalia, auto-ecos

e com que vagar medido dar
a grande notícia da pequenez

ó receptáculos do espanto
ó guizos da consabida mal sabida teoria
ó ós de varandim em pátina

tanto lustre diário tanta
soberania esvaída no ralo

pudéssemos ainda dizer

jericó

sem a História a ruir-nos por cima

e ó cratilismo de segunda
feira escrito em quinta para
ilusório escape à
policial furgoneta

"prendam o occipital!"

quem disse
quem fez
quem ousou?

oh Poesia
meu único grande amor
oponível

*

dizia-se então:
it is impossible to say just what I mean
com a precisão absoluta de quem se contra-
diz

- querias tu ser varapau em sintaxe curtida
nas 5 de outubro do nosso descontentamento?

ó ocasional mistério do mundo

oh

segunda-feira, 4 de maio de 2015

por falar em devir

conta-se que em certos povos do méxico
antes da invenção da roda
os escravos arrastavam blocos de pedra soberbos pesadíssimos
por montanhas selvas quilómetros dias e
que as crianças
caminhando lado a lado
levavam os brinquedos toscos
postos sobre
pequenos cilindros
que durante séculos rolaram
entre gritos de dor
e reinadio

segunda-feira, 20 de abril de 2015

F.A.P. non fecit Averno

ou então entrar por aí assim assis pachecamente
em verso motorizado zoando sobre essa acabrunhada
cabronada da morte à esquina do dia ai a novidade da morte ai
que chega sempre tão ai a tempo do último verso que muito
oh facilis é de facto a oh descensis para oh averno
pois já se sabia pois tomai pois ó mancebia
estradas mais secundárias
obliquai pf isto tudo com o peito
muito aberto
e sem acerto

ou:

peçam o inferno em fascículos a outros
acho pulha no estado actual da poesia

sábado, 11 de abril de 2015

ou as pequenas hemorragias, os ciclos

acontece então que, como uma distracção vulgar, intimamente súbita, falamos.

antes
viemos vindo sempre pelo caminho
geológico da mudez com o nada
a chocalhar nas algibeiras,
atravessando um linho pessoal ou
isto tudo para dizer que viemos sendo
a justa medida da potência absoluta
mas de repente de facto a fala e aí
estacamos
estremunhados como se um
açoite
nos rins
da memória toda do mundo
e vemos o estilhaço desabrochado no ar
no papel ou nos píxeis dentados
vemos vendo-nos vendendo-nos com o horror
e o secreto prazer do nosso fiel fracasso
apalavrado.

então prosseguimos
carregados com as provisões de indignidade:
um alimento para 40 dias ou
um estandarte de néon vivo em aviso
até novo tropeço nas embocaduras
da fala

:

fala-se para legitimar a continuidade do silêncio
a que se chama em língua viva
movimento do mundo
nosso verdadeiro único ouro moral.

(corolário: e isto já foi dito
e calado)

segunda-feira, 23 de março de 2015

e de repente estatelamo-nos na evidência
        não nada de assombros nada de brisas líricas
        penteando o meu deus tão calcinadíssimo cocuruto
        dos dias
a evidência só de sabermos haver um amontoado de gotas
        em trabalho de um rigor impossível
        em acumular de restolho vindo
        dos sucessivos quintais de pretéritos tropeços
        um lago já granítico que assim sem mais
refulge
        como o improvável zinco desse
        fragmento perdido
        de um verão obtuso

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

metafísica nas falésias

Porque viemos de carne abotoada
em muita città e neurose e película
atirámo-nos de borco para as escarpas
a cada subida e visão
:
porque há talvez essa milenar ideia
de um sacrifício não de homenagem
mas de vero alimento
para estas bocas de suplício e vento
ao resguardo da nossa metafísica
:
porque somos meros pontos baços nodosos
que rompem a harmoniosa tessitura do mundo
- e isto, sabê-lo assim por nortada e poalha
e saber que o mar o sabe,
dói-nos mais que um mero
bico de xisto
na cabeça.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

uma moedinha para o apocalipse

e no fim deste isto

quando vier de nós o reino
da guerra aberta pela água à justa
e o mar já pela cintura das montanhas
e a dúzia puta de sempre a rasgar
o espaço sideral
para abrir noutros istos
o estendalário do grotesco

quando as paisagens forem enfim devolvidas
por escasso uso à proveniência
de caos e brisa e a distorção térmica
puser fim
às procuras

quando esse mar tiver galgado
adolescentes
nuvens
ateliers
astros
e demais questões
outrora insolúveis

e quando os mapas forem só um ápice de cilício
e isto este específico isto este
cratilismo de algibeira
for abolido por falta de provas

dir-se-á que afinal
que sim que sempre estivera aí

a verdade

tropeço línguo num século à deriva
estatelado em ricochete
na cara dos imundos