sábado, 11 de abril de 2015

ou as pequenas hemorragias, os ciclos

acontece então que, como uma distracção vulgar, intimamente súbita, falamos.

antes
viemos vindo sempre pelo caminho
geológico da mudez com o nada
a chocalhar nas algibeiras,
atravessando um linho pessoal ou
isto tudo para dizer que viemos sendo
a justa medida da potência absoluta
mas de repente de facto a fala e aí
estacamos
estremunhados como se um
açoite
nos rins
da memória toda do mundo
e vemos o estilhaço desabrochado no ar
no papel ou nos píxeis dentados
vemos vendo-nos vendendo-nos com o horror
e o secreto prazer do nosso fiel fracasso
apalavrado.

então prosseguimos
carregados com as provisões de indignidade:
um alimento para 40 dias ou
um estandarte de néon vivo em aviso
até novo tropeço nas embocaduras
da fala

:

fala-se para legitimar a continuidade do silêncio
a que se chama em língua viva
movimento do mundo
nosso verdadeiro único ouro moral.

(corolário: e isto já foi dito
e calado)

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