terça-feira, 26 de setembro de 2017

la carte et le territoire: bir tawil

a esquadria dos senhores-penhores
esqueceu palavra que esqueceu
bir tawil
talvez um borrão de café sobre o mapa sobre mesa de ébano
(pernas bambas & raquíticas)
quem sabe um descuido do senhor-penhor-mor
enquanto rilhava uvas e trufas e
sobram
agora
na última costura desfeita do mundo
oitocentos square miles trapezóides
muralhados de fronteiras egípcias e sudanesas

oh e ninguém os quer!
quem quer bir tawil?

pedras & areia
ramadas de duro vento núbio
bichos indiferentes ao direito internacional
que vão passando sob
um sol inclemente hoje
noite obtusa amanhã
pouca terra sem nascituros
e estradas nenhures
e um pássaro impossível a não sobrevoar
coisa alguma

oh e ninguém os vê!
oh mas ninguém os quer!
quem quer bir tawil?

uti possidetis, ita possideatis
sim senhores do mundo lavrado em letra de lei bem sei está certo

mas é preciso querer

*

& queria eu um só futuro:

cair súbito nesta última das últimas
terra nullius
e morrer de fome no vácuo da lei

derradeira
paisagem e povoamento

porque

para morrer, toda a terra
e onde está o mundo senão aqui?

(oh mas não é verdade)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

ou mesmo alguém que
entre pelo comércio diurno adentro
que entre mesmo sem entremeios que entre espadeirando
a matar barrocamente toda a gente que entre
de chuva à trela a ribombar em quem riposte
e reposto o caos que se sente

a boca aberta em amplos patamares

e uma língua astuta um tapete
um escorrega

quinta-feira, 7 de maio de 2015

ohlalia, auto-ecos

e com que vagar medido dar
a grande notícia da pequenez

ó receptáculos do espanto
ó guizos da consabida mal sabida teoria
ó ós de varandim em pátina

tanto lustre diário tanta
soberania esvaída no ralo

pudéssemos ainda dizer

jericó

sem a História a ruir-nos por cima

e ó cratilismo de segunda
feira escrito em quinta para
ilusório escape à
policial furgoneta

"prendam o occipital!"

quem disse
quem fez
quem ousou?

oh Poesia
meu único grande amor
oponível

*

dizia-se então:
it is impossible to say just what I mean
com a precisão absoluta de quem se contra-
diz

- querias tu ser varapau em sintaxe curtida
nas 5 de outubro do nosso descontentamento?

ó ocasional mistério do mundo

oh

segunda-feira, 4 de maio de 2015

por falar em devir

conta-se que em certos povos do méxico
antes da invenção da roda
os escravos arrastavam blocos de pedra soberbos pesadíssimos
por montanhas selvas quilómetros dias e
que as crianças
caminhando lado a lado
levavam os brinquedos toscos
postos sobre
pequenos cilindros
que durante séculos rolaram
entre gritos de dor
e reinadio

segunda-feira, 20 de abril de 2015

F.A.P. non fecit Averno

ou então entrar por aí assim assis pachecamente
em verso motorizado zoando sobre essa acabrunhada
cabronada da morte à esquina do dia ai a novidade da morte ai
que chega sempre tão ai a tempo do último verso que muito
oh facilis é de facto a oh descensis para oh averno
pois já se sabia pois tomai pois ó mancebia
estradas mais secundárias
obliquai pf isto tudo com o peito
muito aberto
e sem acerto

ou:

peçam o inferno em fascículos a outros
acho pulha no estado actual da poesia

sábado, 11 de abril de 2015

ou as pequenas hemorragias, os ciclos

acontece então que, como uma distracção vulgar, intimamente súbita, falamos.

antes
viemos vindo sempre pelo caminho
geológico da mudez com o nada
a chocalhar nas algibeiras,
atravessando um linho pessoal ou
isto tudo para dizer que viemos sendo
a justa medida da potência absoluta
mas de repente de facto a fala e aí
estacamos
estremunhados como se um
açoite
nos rins
da memória toda do mundo
e vemos o estilhaço desabrochado no ar
no papel ou nos píxeis dentados
vemos vendo-nos vendendo-nos com o horror
e o secreto prazer do nosso fiel fracasso
apalavrado.

então prosseguimos
carregados com as provisões de indignidade:
um alimento para 40 dias ou
um estandarte de néon vivo em aviso
até novo tropeço nas embocaduras
da fala

:

fala-se para legitimar a continuidade do silêncio
a que se chama em língua viva
movimento do mundo
nosso verdadeiro único ouro moral.

(corolário: e isto já foi dito
e calado)

segunda-feira, 23 de março de 2015

e de repente estatelamo-nos na evidência
        não nada de assombros nada de brisas líricas
        penteando o meu deus tão calcinadíssimo cocuruto
        dos dias
a evidência só de sabermos haver um amontoado de gotas
        em trabalho de um rigor impossível
        em acumular de restolho vindo
        dos sucessivos quintais de pretéritos tropeços
        um lago já granítico que assim sem mais
refulge
        como o improvável zinco desse
        fragmento perdido
        de um verão obtuso