sábado, 3 de janeiro de 2015

Um breve assassinato póstumo

Esta é a hora do dia em que a luz é uma fundição de gumes no peito. Corro a vestir uma boca própria para a caçada - pode ser marítima, já se vê. Pouco importa que a alegoria se atire por estes dias como um cão ingénuo à boca cosida dos séculos. Saiba-se o seguinte: estou a tratar de apagar a pouca vida que tive trazendo-a à tona à força de algum ouropel, piruetas breves, peças de jogo; uma boca adequada, dizia. É um exercício simples, em todo o caso. Sobra um espantalho que já é sempre outra coisa, e assim compro mais algum tempo para ceifar, vendado - é a história de sempre. Os circuitos estão à vista, como se verá, e daí? Entretanto esta já nem sequer é a hora. É preciso sobretudo que o magma irresoluto encontre um caminho para longe, todo o artifício é pouco. O que vier depois é literatura, coisa da qual é imperativo fugir com o máximo ruído de correntes a ecoar pelo lajedo. Comecemos:

Desces já com tranças de algas e um eco horrendo nas escadarias de areia. Trazes um lastro de país rasurado, fazes subir o nível das águas. Aqui o sal só corrói, já não como outrora quando o sorvia das tuas ancas de luz. Nesse tempo eu era todo lábios em torno das goteiras do ódio, não admira que este mar obsceno tenha surgido, bastou um truque de vento, a circunstância.

Palavra que desconhecias estes recantos da minha boca? Que saibas que há ainda um outro planeta de fundura e ócio, aqui só jorros de magma que se arrepende e arrefece depressa.

(A lâmina está pronta, senhor, diz o ferreiro tinhoso que é a minha maior cratera, faça-o enquanto está quente, e não esqueça os arrebiques, lamba o sangue da lâmina, imagine uma câmara a absorvê-lo: matar é barroco)

Eu sei que em certos dias atravessámos, houve autocarros para isso, houve conspiração terna do mundo para isso. Chegámos a ser, imagine-se, contemporâneos. Porque te arrasto para aqui? Que saibas que é este o matadouro mais limpído, que marulha à força de cuspo e fel e malvasia - no fim, só mais um cadáver polido pela respiração oceânica da língua.

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