aqui vou manso acrílico vertical
a tropeçar nos bordões cívicos dos dias
aplicado nesta minha firme condição de ser hoje quarta-feira
- tem sido desde há muito muitíssimo quarta-feira -
e aqui sigo lesto escorrendo por esta cidade opalina
indiferente às grandes combustões por detrás de tudo
por tudo de novo passando em suave vizinhança
- ó vida concreta meras ramagens -
dando solenes tímidos bons dias a este pouco inverno
falho de palavras curto de ombros
que habilmente sustenham
a chuva rápida da breve vida
e tudo isto calca a minha paciência como um pequeno sábado
dominical sem lutos de maior é afinal
dia de despir solenemente o casaco à soleira da alegria
distrair os telefones não pensar em árvores
regar os pequenos ódios na marquise:
fugir enfim das tenazes palavras
vivos fogos para tão parcas folhas
pouco fôlego tenho para tudo isto bem se vê
- sempre o homem teve predilecção pelos castelos dos outros -
e eu peço de empréstimo esta língua acabada
para talvez quem sabe uma palavra de eco
nas embocaduras deste tempo funcionário como todos:
a respiração de um pai benevolente
o cheiro a quietude durante os regressos
uma memória turva de ter tido memória
- qualquer coisa sobre a infância -
mas a verdade é esta: estou cercado de cidade
e falta-me um nome
um nome último doméstico domesticado
um nome que me assente verticalmente
como uma camisola contra a metafísica -
mas pode alguém algum dia ter um nome que se escreva
neste pequeno país de água à beira-treva?
sou só um pobre epígono da minha solidão
um dia
excessivamente tarde impossivelmente cedo
virá alguém de longe
desembrulhar um país de chuva às portas da cidade
e aí sereno opaco horizontal
debaixo da grande terna árvore anónima
eu terei finalmente
uma palavra a dizer
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